Cura e devoção sacramentados na voz das benzedeiras

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Por Valmor Vieira Neto

Dona Maria acende com cuidado a vela do pequeno altar montado sobre a cristaleira, enquanto balbucia uma reza pedindo a intervenção da Virgem Maria na benzedura que se inicia. Aos 90 anos, Maria Coelho da Rosa é uma das responsáveis por preservar a tradição da benzedura na Grande Florianópolis. Com um crucifixo na mão, ela se aproxima da criança, que chora compulsivamente no colo da mãe, aumenta o tom de voz e numa oração quase cantada, começa o ritual repetindo inúmeras vezes o sinal da cruz, para acabar com o mau-olhado o cortar o encantamento sobre o garoto. Em seu rosto a benzedeira expressa a angústia da luta travada contra o mal, contagiando o ambiente com uma aura mística, cujo silêncio é rompido apenas pelo choro criança.

Ao ver o filho com pouco apetite, Carla Oliveira da Silva seguiu a recomendação da mãe, levando a criança à casa de Dona Maria para que ela o benzesse, retirando o mau olhado que o impedia comer. Guilherme, de apenas dois anos, cessa o choro e olha fixamente para Dona Maria, que de olhos fechados termina a oração para o quebranto. Ela recomenda à mãe que traga o garoto outras duas vezes para ser benzido e que coloque ramos de arruda, guiné e alecrim sob o travesseiro da criança.

Em seu trabalho de conclusão de curso, a antropóloga Letícia Grala Dias afirmava, em 2013, que “no universo nativo, benzer alguém, seja para afastar males e curar doenças, seja para fortalecimento e proteção, significa fazer o bem para outra pessoa. É na atividade de cura que o ritual de benzedura se contempla.” A medicina popular existe desde os primórdios da civilização e teve grande importância durante a colonização açoriana na Grande Florianópolis. Por conta dos escassos recursos médicos que as comunidades da região dispunham e sob a forte influência da religião católica, os moradores atribuíam diversos problemas de saúde às causas sobrenaturais, buscando primeiro o tratamento através da fé e das plantas medicinais, que eram recomendadas pelas benzedeiras. Se as enfermidades não fossem solucionadas, só então se buscava o tratamento com a medicina tradicional.

Devota de Nossa Senhora Aparecida, Dona Maria cuida com carinho da principal imagem sobre o altar, vestindo-a com um manto novo comprado na Basílica de Aparecida, na única viagem que fez para fora de Santa Catarina. Em veludo e bordado com as bandeiras do Brasil e do Vaticano, o manto azul contrasta com a pintura descascada da santa sobre a cristaleira. Ao lado da imagem da santa, repousam também uma de Jesus Cristo e outra de Nossa Senhora de Fátima, todas abaixo de um imenso crucifixo em madeira, pregado na parede e que envolve a foto do Papa João Paulo II. Ao lado da cristaleira já corroída por cupins, uma antiga máquina de costura, há tempos não utilizada, preserva a lembrança do tempo em que Dona Maria costurava as roupas dos netos que ela ajudou a criar. Viúva há quase 30 anos, ela lamenta a solidão da velhice, mesmo tendo sete filhos, mais de 30 netos, e outros tantos bisnetos e tataranetos que ela sequer lembra os nomes.

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Dona Maria Coelho da Rosa exibe sua Santa a quem é devota.

A benzedeira mais famosa do Alto Aririú, em Palhoça, atende, em sua casa, pessoas que buscam soluções para problemas no relacionamento, objetos perdidos e a cura para os mais diversos males, como a arca caída (também conhecida como espinhela caída) e o cobreiro (nome popular da herpes zoster). Analfabeta, Maria Coelho da Rosa conta que aprendeu a benzedura com a mãe, na época “em que ainda era moça” e que não pode cobrar pelo atendimento ao público, porque se o fizesse a reza perderia seu efeito.

Aos 62 anos, Carmem Adriana dos Santos, a Dona Sueli, conta que aprendeu a benzer ainda na infância, através de uma vizinha que antes de morrer disse que ela a substituiria. E foi assim que após a morte da Tia Benta, ela assumiu a responsabilidade de continuar fazendo o bem ao próximo e mantendo a tradição da benzedura na comunidade onde mora. Ela afirma que enquanto puder benzer, continuará atendendo as pessoas, pois este “é um bem que faz para os outros, alivia a dor e o sofrimento de quem precisa.”

Dona Sueli recebe os visitantes em sua cozinha, onde um altar repleto de imagens sacras, construído com pedras sabão na forma de uma pequena gruta, é iluminado por uma vela de sete dias já queimada pela metade. O cheiro de fumaça domina o ambiente e os estalos da madeira ardendo no fogão a lenha se misturam ao barulho da água que ferve incessantemente na chaleira. Flores artificiais decoram a humilde cozinha da benzedeira, que entre uma conversa e outra oferece café aos seus visitantes. No quintal, inúmeras plantas medicinais disputam lugar com as hortaliças, que ela usa como tempero, e as árvores frutíferas que são a diversão dos netos.

Com um forte sotaque manezinho, Dona Sueli conta que foi criada sob os dogmas da religião católica, mas que sua religião é o espiritismo. “Fui batizada, fiz a primeira comunhão, me casei e batizei todos os meus filhos na igreja católica. Sempre que eu posso eu vou à missa, porque fui criada assim, mas eu sou espirita.” Assim como Dona Maria, ela afirma que também não cobra pelas benzeduras que faz, mas que as pessoas que atende sempre a ajudam levando uma doação. “Eu faço isso por amor e se as pessoas oferecem a sua doação com o coração eu aceito.”

A antropóloga Sônia Maluf afirma que as benzedeiras sempre têm uma mestra responsável por lhes repassar o conhecimento. Ela destaca que, devido a colonização açoriana, as benzedeiras da região da Grande Florianópolis costumam lidar com forças sobrenaturais, como a bruxa. “Nas localidades mais arraigadas à cultura açoriana, costuma-se atribuir às bruxas a responsabilidade pelos mais diversos males, como o insucesso na pescaria, o choro frequente de crianças e até a desnutrição. Essa atribuição ao sobrenatural popularizou as benzedeiras e tornou-lhes figuras indispensáveis na sociedade.”

Dona Sueli pega a chaleira sobre o fogão a lenha, despeja a água fervendo dentro do coador e começa a passar o cafezinho da tarde. O aroma do café torna o ambiente ainda mais aconchegante e convidativo na fria tarde de sexta-feira. Depois volta a preencher a chaleira com água fria e a devolve ao fogão, alimentando a chama com novos pedaços de madeira. A vida simples de Dona Sueli e seu contato permanente com a natureza trouxeram-lhe a saúde necessária para cuidar daqueles que não tiveram a mesma sorte.

Maluf destaca que não existe uma prática que perdure durante o tempo sem acompanhar os processos de mudança da sociedade e que nenhuma comunidade consegue viver em isolamento, portanto as benzedeiras devem continuar passando seus ensinamentos, contudo devem sofrer mudanças ao longo dos anos. Dona Maria conta que transmitiu seus ensinamentos sobre as plantas medicinais para todos os seus filhos, entretanto apenas dois deles são espíritas e sabem suas benzeduras. Já Dona Sueli diz que não passou as benzeduras para nenhum de seus filhos, mas todos têm o conhecimento sobre as ervas e seus benefícios.

Na comunidade da Barra do Aririú, em Palhoça, basta perguntar a qualquer morador onde fica a casa de Dona Teresinha, que todos logo se aprontam para indicar o humilde casebre de madeira repleto de plantas. Aos 83 anos, a senhora de vestido estampado com flores azuis e lenço no cabelo passa as tardes sentada na varanda observando o movimento da rua e acenando para os conhecidos, que a cada dia parecem mais estranhos. “A cidade cresceu muito, a gente já não conhece quase ninguém e com essa bandidagem de hoje em dia, nem se arrisca mais a ficar andando por ai”, conta Dona Teresinha, que ainda diz sair de casa só pra ir na missa, no mercado e na feira nas manhãs de sábado.

Ninguém sabe explicar se é a fé dos enfermos ou um dom divino, mas todos no bairro sabem que Dona Teresinha, benze como ninguém. Na rua que ela viu crescer, a benzedeira é unanimidade. “Ela é abençoada. Benzeu todos os meus filhos quando eram pequenos e sempre que precisávamos ela nos dava as plantinhas do quintal para fazer chá”, conta a dona de casa Maria do Carmo Oliveira. Dona Teresinha nem faz ideia do número de pessoas que já atendeu, mas sabe da importância que tem na comunidade. “Atendo todo mundo que precisa, porque a gente não é nada nesse mundo, então tem que fazer o bem para colher o bem”.

O carinho e respeito pela natureza é uma característica em comum entre as benzedeiras da Grande Florianópolis, que além de cultivarem inúmeras plantas medicinais e indicam e distribuem aos moradores. Dona Teresinha diz que as pessoas hoje “tomam muito remédio e cada dia estão mais doentes”. Ela conta que prefere se tratar com as ervas que cultiva no quintal e deve isso à saúde que preserva e distribui aos moradores da região.

No III Congresso Científico da Região Centro-Ocidental do Paraná, promovido pela Faculdade Integrado de Campo Mourão, um estudo sobre a importância das plantas medicinais concluiu que, se usados de forma correta, seus princípios ativos podem proporcionar inúmeros benefícios para o bom funcionamento do organismo, podendo ser usados na alimentação e também através de pomadas. As plantas medicinais auxiliam na diminuição da ingestão de medicamentos químicos, o que evita as reações adversas desses produtos.

As benzedeiras da Grande Florianópolis representam a cultura e o sincretismo religioso de um povo que busca na fé e na natureza a cura de seus males físicos e emocionais. Através das mãos e da voz dessas pessoas, gerações foram benzidas e juram terem sido curadas pelas palavras consagradas proferidas por elas. Acredite ou não no poder das benzedeiras, não há como discordar da importância que elas têm para as comunidades dessa região, prova disse é que o ato de curar por meios não tradicionais é visto como um patrimônio imaterial da cultura brasileira pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ligado ao Ministério da Cultura.

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